A cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos de Inverno de Milão-Cortina, realizada nesta sexta-feira (6) no anfiteatro romano de Verona, selou o retorno de atletas da Rússia e de Belarus ao cenário esportivo internacional sob suas próprias bandeiras. É a primeira vez desde Sochi-2014 que competidores russos podem desfilar com seus símbolos nacionais e ouvir seu hino em uma Paralimpíada.
O reinício da participação não passou incólume. A delegação ucraniana, acompanhada por seis outros países, boicotou o desfile em protesto contra a presença dos rivais. A rusga é consequência direta da invasão da Ucrânia, iniciada há cinco anos, que resultou no banimento quase total de russos e belarussos de competições globais.
Suspensão parcial e decisões divergentes
Pouco depois do ataque russo, a maioria das federações internacionais vetou esportistas dos dois países. Nos Jogos Olímpicos, adotou-se um bloqueio parcial: um grupo limitado de atletas pôde competir neutro, sem bandeira ou hino. Paralelamente, a FIFA manteve a seleção russa fora da Copa do Mundo, medida que, segundo o presidente da entidade, não trouxe efeitos práticos.
Algumas modalidades já haviam afrouxado as restrições. Desde 2025, a Federação Internacional de Judô autoriza atletas da Rússia a atuar com sua bandeira. No caso do esqui, o Tribunal Arbitral do Esporte (CAS) deu ganho de causa aos russos contra a Federação Internacional de Esqui, permitindo sua inscrição em eventos oficiais.
Decisão do IPC e números em Milão-Cortina
O Comitê Paralímpico Internacional (IPC) revogou a suspensão imposta em 2022, mas deixou a palavra final às federações responsáveis por cada esporte. Com isso, seis atletas russos e quatro de Belarus garantiram vaga nos Jogos italianos.
O IPC havia argumentado, à época do banimento, que Moscou e Minsk usavam o sucesso esportivo como ferramenta de propaganda de guerra. A entidade avalia que o problema perdeu força, ainda que especialistas prevejam novo uso político caso as vitórias se acumulem.
Trégua olímpica fragilizada
A volta dos russos expõe a fragilidade do conceito de trégua olímpica, ressuscitado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e pela ONU nos anos 1990. O princípio, que na Grécia Antiga suspendia hostilidades durante os Jogos, foi quebrado repetidas vezes nas últimas décadas – inclusive quando a Rússia lançou a ofensiva contra a Ucrânia às vésperas da Paralimpíada de 2022.
Imagem: Reprodução
Conflitos atuais evidenciam o impasse. Estados Unidos, Israel, Irã e seus vizinhos seguem em disputa militar sem qualquer perspectiva de sanção esportiva. Na edição de 2026 em Milão-Cortina, Israel inscreveu um competidor; os EUA, 68. Um representante iraniano abandonou o evento por motivos de segurança.
Organizações esportivas buscam neutralidade
Para o COI, “atletas não podem ser punidos pelas ações de seus governos”. Críticos apontam, contudo, que escolher qual guerra gera punição amplia a percepção de injustiça. Se todos os países envolvidos em confrontos fossem excluídos, avaliam especialistas, os grandes eventos deixariam de existir.
Diante de pressões políticas, jurídicas e comerciais, federações têm adotado a estratégia considerada mais segura: reduzir ao máximo o envolvimento em decisões geopolíticas, mesmo que isso não satisfaça todas as partes.
Assim, a arena milenar de Verona testemunhou muito mais que um show de abertura: revelou a tentativa, ainda controversa, do esporte de se equilibrar em meio a um mundo cada vez mais conflagrado.









































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