São Paulo – A adoção de exames genéticos pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) para definir quem pode competir na categoria feminina carece de sustentação científica robusta, avalia o fisiologista Bruno Gualano, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
O COI anunciou na quinta-feira (data do anúncio) que passará a detectar a presença do gene SRY, localizado no cromossomo Y, em amostras de saliva. Atletas com resultado positivo serão direcionados às provas masculinas ou a eventos sem divisão por sexo.
Meta-análise questiona vantagem física
Gualano coordenou em 2025 uma meta-análise que reuniu 51 estudos e 6.400 participantes sobre desempenho de pessoas trans no esporte. Segundo ele, a literatura disponível é limitada e não confirma vantagem competitiva de mulheres trans em relação a mulheres cisgênero.
“Os estudos são escassos e, em muitos casos, desatualizados”, afirmou o pesquisador, lembrando que atletas trans representam menos de 0,001% do esporte de alto rendimento, conforme dados do próprio COI.
Limitações do teste genético
Embora a identificação do SRY seja tecnicamente precisa, a simples presença do gene não garante expressão funcional que resulte em ganho atlético, explicou Gualano. Ele citou condições biológicas raras em que indivíduos com cromossomo Y apresentam fenótipo feminino, o que, segundo ele, evidencia a insuficiência do exame para determinar vantagem esportiva.
Contexto político
Para o professor da USP, o endurecimento das regras reflete um ambiente político global desfavorável aos direitos de pessoas trans. Ele classifica a decisão como “política” e não fundamentada em evidências sólidas.
Imagem: Reprodução
Posicionamento do COI
A presidente do COI, Kirsty Coventry, defendeu a nova política. “Nos Jogos Olímpicos, diferenças mínimas separam vitória e derrota. Não seria justo que homens biológicos competissem na categoria feminina”, declarou, acrescentando que há também preocupações com segurança em determinados esportes.
Após abandonar testes universais de verificação de sexo em Atlanta-1996 e adotar diretrizes mais flexíveis a partir de 2021, o COI retoma agora um critério genético único. Para Gualano, a medida representa um retrocesso metodológico.
Entidades de direitos humanos e organizações LGBTQIA+ criticam a restrição e afirmam que a regra exclui mulheres trans de competições de elite sem base científica conclusiva.









































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