São Paulo – Ao completar dez anos de existência, o bloco Quem Tem Boca Vaia Roma (QTB) mantém a proposta de permanecer pequeno e espontâneo, contrariando a tendência de megablocos impulsionados por trios elétricos e grandes patrocinadores no Carnaval de rua da capital paulista.
Fundado por músicos que dividiam uma casa térrea próxima a uma praça do Siciliano, na Vila Romana, o grupo decidiu desfilar apenas por poucas quadras do bairro. A opção é, segundo os organizadores, uma forma de preservar a atmosfera de proximidade entre foliões e moradores que marcou o primeiro cortejo, em 2016.
A origem do bloco
Um dos idealizadores, o músico e poeta Gustavo Galo, 40 anos, hoje radicado na Serra da Mantiqueira, lembra que o QTB mudou a relação entre artistas e vizinhança. “Houve um contágio geral. Antes, muitos chamavam a polícia por causa do barulho dos ensaios. Com o bloco, deixamos de ser vistos como jovens bagunceiros e passamos a ser encarados como trabalhadores do bairro”, afirma.
Após o primeiro desfile, relatos de comerciantes indicam que a convivência se estreitou. A padaria Natalina, ponto tradicional da Vila Romana e parada obrigatória do QTB, passou a conceder prazos de 30 a 40 dias para pagamentos, prática elogiada por moradores mais antigos.
Utopia possível
Para Galo, o bloco representa “uma pequena cidade idílica” em que vizinhos se conhecem, trocam favores e defendem os mesmos espaços públicos. “O Carnaval desfaz o rigor hierárquico, ensina a viver coletivamente e de maneira horizontal, faz aflorar rotinas que ordinariamente reprimimos”, diz.
Imagem: Reprodução
Na entrevista de domingo (15) à Folha, o historiador Luiz Antonio Simas reforçou essa percepção ao afirmar que “a essência do Carnaval de rua é a espontaneidade, o caráter transgressor” e que a festa “sobreviveu a todas as tentativas de ordená-la porque possui uma dimensão única de reconstrução coletiva do sentido da vida”.
Segunda sem desfile
Apesar da expectativa, o QTB não saiu às ruas nesta segunda-feira de Carnaval. Integrantes apontam que muitos músicos já não residem mais na região, o que fragiliza os laços originais com o Siciliano. Mesmo assim, o bloco pretende manter apresentações pontuais para preservar a tradição que conquistou status de patrimônio afetivo do bairro.
Enquanto patrocinadores e autoridades celebram o “maior Carnaval do Brasil” em números de público e receita, blocos de menor porte como o Quem Tem Boca Vaia Roma insistem em resguardar o espírito comunitário que, para eles, sustenta a festa além da Quarta-feira de Cinzas.









































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