Padampura (Índia) – Aos 14 anos, Nisha Vaishnav treinava futebol em uma noite de verão quando percebeu cinco adultos fotografando-a ao lado da irmã Munna, de 18. O grupo, formado por parentes de um jovem em busca de esposa, visitou a família logo depois. Incentivada pelo esporte, Nisha recusou a proposta de casamento, contrariando a mãe e desafiando um costume ainda arraigado no estado indiano do Rajastão.
Programa esportivo muda rotina de 800 meninas
Nisha conheceu o futebol em 2022, apresentada por Munna, que integrava o Football for Freedom – iniciativa da organização Mahila Jan Adhikar Samiti criada em 2016 para melhorar a vida de meninas por meio do esporte. Desde então, cerca de 800 jovens de 13 aldeias já passaram pelos treinos.
Além de ensinar fundamentos do jogo, o projeto aborda direitos das meninas e riscos do casamento precoce. “Quando entendem o que a lei diz e os problemas ligados ao casamento infantil, elas ganham voz para se posicionar”, explica Padma Joshi, coordenadora do programa.
Desafios culturais e legais
A legislação indiana proíbe casamento de meninas com menos de 18 anos e de meninos abaixo de 21. Facilitar essas uniões pode gerar até dois anos de prisão e multa de 100 mil rúpias (cerca de R$ 5.760). Na prática, porém, processos são raros, segundo Anjali Sharma, do Comitê de Bem-Estar Infantil de Ajmer, porque testemunhas se recusam a depor e comunidades inteiras ajudam a esconder cerimônias.
Dados do Ministério da Mulher e do Desenvolvimento Infantil mostram 1.050 casos denunciados em 2021, frente a 395 em 2017. O número, contudo, representa uma fração das aproximadamente 1,5 milhão de meninas indianas que se casam todo ano, conforme o Unicef.
Pesquisa Nacional de Saúde da Família indica queda expressiva na prática: em 1992-93, 66% das indianas casavam antes dos 18; hoje, a taxa está em torno de 25%. No Rajastão, os índices seguem acima da média nacional.
Campo vira palco de resistência
Para jogar, Munna precisou convencer líderes locais a permitir o uso de shorts – algo incomum em comunidades onde mulheres casadas cobrem o rosto diante de homens. “Nos primeiros dias, algumas apontavam para nós e criticavam. Ignoramos e continuamos”, conta.
Imagem: Reprodução
O futebol trouxe visibilidade a Nisha, que defendeu a seleção estadual no Campeonato Nacional de 2024 e cortou o cabelo curto, outro gesto de independência. Em 2025, ela e a irmã rejeitaram nova proposta de casamento conjunto. Quando o pai questionou se havia um namorado nos treinos, Nisha respondeu: “Meu amor é o futebol”.
Esporte como porta para o serviço público
Estados indianos reservam vagas em cargos governamentais para atletas de destaque – argumento usado pelo Football for Freedom para convencer pais a manter filhas nos treinos. Nisha, agora com 15 anos, sonha disputar a seleção nacional; se não conseguir, pretende usar o currículo esportivo para conquistar um posto público e autonomia financeira.
Munna, hoje com 19, treina meninas do projeto e cursa licenciatura universitária com objetivo de tornar-se professora de educação física. Mesmo pressionada pelos sogros da irmã mais velha a aceitar casamento arranjado, ela resiste e aconselha as alunas: “Quero que realizem seus sonhos, casem ou não”.
Enquanto isso, nos campos de terra batida de Padampura, cada gol marcado segue adiando alianças e aproximando as jogadoras de um futuro definido por elas mesmas.









































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