NUUK, Dinamarca – O gongo soa, e William, 15, entra no ringue com os olhos fixos no adversário dinamarquês. Dois anos depois de perder a mãe por suicídio, o jovem encara o boxe como forma de lidar com a dor que atravessa a Groenlândia, onde o ato de tirar a própria vida representou 7,4% das mortes registradas em 2023 – uma das taxas mais altas do planeta.
Entre gritos da plateia e o cheiro de suor, William tenta se esquivar dos golpes, mas termina sangrando, amparado pelo árbitro. “Na manhã da luta, chorei pensando nela. Prometi que venceria”, conta, já em casa, a voz baixa diante da foto da mãe, Mette, ex-campeã de artes marciais groenlandesa.
Da fuga em álcool à disciplina do esporte
Após a morte de Mette, William recorreu a álcool e drogas. O irmão mais velho, Kian, 19, escolheu outra rota: a adrenalina do esporte. Foi ele quem convenceu o caçula a vestir luvas “para limpar a mente”. O ringue tornou-se ponto de encontro com pessoas “positivas” e homenagem à mãe, cujas medalhas de infância ainda povoam as lembranças dos dois irmãos.
Raízes de um trauma coletivo
Estudo publicado no International Journal of Circumpolar Health aponta que os jovens da Groenlândia ainda carregam traumas herdados de gerações anteriores. “Todos conhecemos um ou dois parentes ou amigos que se mataram, às vezes muitos mais”, diz Kian. William completa, hesitante: “Há pouco tempo perdi dois amigos”.
No pequeno ginásio de Nuuk, cerca de 20 adolescentes treinam sob ordens de Philippe Andersen, 27, ex-boxeador. “Dois meses antes da luta, nada de álcool ou cigarros”, adverte. Muitos sofreram bullying, perderam familiares ou enfrentam problemas sociais; no ringue, diz o treinador, “eles deixam a raiva sair”.
Herança de deslocamentos forçados
À noite, jovens vagueiam pelas ruas geladas da capital. Blocos de apartamentos erguidos na campanha de urbanização dinamarquesa dos anos 1970 dominam o penhasco. No Bloco T, uma discreta luminária lembra as vítimas do suicídio.
Imagem: Reprodução
A migração forçada de famílias inuit para centros urbanos na década de 1980, descrita pela revista The Lancet, elevou drasticamente as taxas de suicídio. Apesar da demanda por apoio psicológico, a distância entre povoados e a falta de profissionais que falem kalaallisut limitam o atendimento, hoje majoritariamente online – fator que irrita Kian.
Nos últimos anos, o governo ampliou centros de escuta e iniciou a descentralização da formação em saúde mental, primeiro passo para reduzir barreiras, mesmo com o êxodo rural em curso.
Um futuro longe de casa
Em alguns meses, William partirá para a Dinamarca, da qual a Groenlândia faz parte, para continuar os estudos. Será um ano distante de amigos e do irmão. “É muito difícil”, admite. Incentivado pelos treinadores, Kian planeja encontrá-lo mais tarde, tentar carreira internacional e, quem sabe, integrar a seleção dinamarquesa de boxe – uma forma de, nas palavras dele, “virar a página”.









































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