A defesa do título mundial na Copa de 2026, nos Estados Unidos, México e Canadá, começa fora de campo para a torcida argentina. A adoção da precificação dinâmica pela Fifa fez os ingressos saltarem para patamares inéditos, obrigando fãs a contrair dívidas altas para acompanhar Lionel Messi em sua provável última participação no torneio.
Preços dinâmicos impõem novo recorde
Pela primeira vez em quase um século de Copa do Mundo, o valor do bilhete varia conforme demanda, modelo comum em eventos norte-americanos. O resultado: partidas da Argentina na fase de grupos partem de US$ 800, mais que o dobro pago pelos rivais de chave — Argélia, Jordânia e Áustria — e várias vezes acima dos tíquetes de 2022, no Catar.
Na revenda oficial, que rende 30% à Fifa, há pedidos milionários: um lugar para a final, em 19 de julho, chegou a ser anunciado por mais de US$ 2 milhões. Mesmo o valor de face para a decisão já ultrapassa US$ 10 mil — dez vezes o preço de quatro anos atrás.
Economia argentina agrava o quadro
Com inflação elevada e renda média próxima de US$ 1.200, muitos torcedores veem o sonho exigir malabarismo financeiro. Cartões estourados, rifas e empréstimos informais tornaram-se comuns, enquanto viagens longas por escalas — passando por São Paulo, Aruba ou Charlotte, por exemplo — substituem os voos diretos aos EUA.
O sociólogo Pablo Alabarces resume o fenômeno: “Somos um país pobre, mas nos orgulhamos de ser os melhores torcedores”.
Messi e o fator “última dança”
A busca frenética também tem nome e sobrenome. Aos 38 anos em 2026, Lionel Messi dificilmente disputará outra Copa. Isso eleva a pressão sobre quem não quer ficar de fora da despedida do ídolo que comandou o tricampeonato em Doha, em 2022.
Imagem: Reprodução
“É um sonho cultural. Se preciso, vendo o carro”, admite a desenvolvedora Soledad Aldao, que já pagou US$ 700 para ver Argentina x Jordânia e Argentina x Argélia, em Dallas.
Estratégias no limite
- Matias Celestino, que foi aos 18 jogos das Eliminatórias, estourou vários cartões de crédito e ainda procura ingressos para os duelos em Dallas e Kansas City.
- Alejandro Solnicki, funcionário de cassino, topará cinco dias de escalas para economizar na passagem aérea e dividirá quarto com até dez pessoas, como fez nas Eliminatórias.
- Parte da torcida organiza churrascos coletivos em Buenos Aires para trocar dicas de hospedagem e buscar colegas de quarto nos EUA.
Risco de esvaziamento e críticas à Fifa
Alguns habitués de Copas desistiram em protesto. Rodrigo Diez, presente em Brasil-2014, Rússia-2018 e Catar-2022, considera inviável pagar valores “que não fazem sentido”. A preocupação é que a experiência in loco se torne privilégio restrito, rompendo a tradição de arquibancadas albicelestes lotadas.
A Fifa alega que a nova receita financiará o desenvolvimento global do futebol, mas enfrenta questionamentos de torcedores e de políticos argentinos. Há até ações judiciais contestando a política de preços.
O caminho dos campeões
Antes mesmo de medir forças com adversários dentro de campo, a Argentina lida com uma batalha financeira fora dele. A equipe estreia em 12 de junho, em Dallas, contra a Jordânia, volta ao AT&T Stadium cinco dias depois para encarar a Argélia e fecha a fase de grupos em 22 de junho, em Kansas City, diante da Áustria. Até lá, a corrida por ingressos deve permanecer tão intensa quanto a expectativa de ver Messi — possivelmente pela última vez — liderar a Albiceleste em uma Copa.









































Adicionar comentário