Quando o árbitro apitou o fim do empate por 1 a 1 entre Chapecoense e Vitória, na Arena Condá, Nívia de Lima já sabia que a tarde de 5 de abril ficaria marcada na história do Campeonato Brasileiro. Aos 44 anos, a pernambucana tornou-se a primeira mulher a atuar como auxiliar técnica em um jogo da elite masculina.
Chamada para compor a comissão interina formada após a demissão de Gilmar Dal Pozzo e antes da chegada de Fábio Matias, Nívia trabalhou ao lado de Celso Rodrigues, então treinador provisório. A profissional da base aproveitou a oportunidade sem fugir da rotina: análise de adversário, orientações no aquecimento e participação ativa na beira do gramado.
Trajetória construída na base
Nívia está no clube catarinense desde 2012. Começou como assistente em diferentes categorias e, em 2024, assumiu oficialmente o comando do sub-20. Um ano depois, levou a equipe à final do Campeonato Catarinense da categoria e dirigiu o time profissional alternativo na Copa Santa Catarina. Em janeiro, conquistou a primeira vitória de uma mulher como técnica principal na tradicional Copinha.
Impacto além de um “feito isolado”
Apesar da repercussão, a treinadora prefere não resumir a carreira ao marco. “O meu sentimento era que estava pronta”, declarou após a partida. A afirmação ecoa em um cenário ainda restritivo: historicamente, apenas dois dos 16 elencos da Série A feminina iniciaram a temporada com mulheres no comando, realidade que se repete – de forma ainda mais severa – entre os homens.
Números mostram avanço lento
- Em 2019, 62 mulheres concluíram cursos da CBF Academy.
- Em 2020, foram 318 formandas; em 2021, o número subiu para 420.
- No Mundial feminino de 2023, 12 de 32 seleções tinham treinadoras.
- A FIFA exigirá ao menos duas mulheres nas comissões técnicas a partir da Copa do Mundo de 2027, no Brasil.
Os dados revelam crescimento na qualificação, mas a transição para cargos de visibilidade segue limitada. Nívia aponta o preconceito estrutural: “Quando um homem erra, é visto como decisão equivocada; quando é uma mulher, o julgamento recai sobre o gênero”.
Imagem: Reprodução / OddsNEWS
Barreiras estruturais
No dia a dia das categorias de base, a técnica relata ter ouvido comentários depreciativos e resistências iniciais de atletas e colegas. A virada começou com resultados – finais estaduais, classificação em Copinha – que respaldaram seu trabalho. Ainda assim, ela destaca: sem espaço nos elencos masculinos, mesmo técnicos licenciados dificilmente chegam à elite.
Próximos passos
De volta ao sub-20, Nívia segue como assistente de Celso Rodrigues no grupo alternativo que disputa a Copa Sul-Sudeste, enquanto a Chapecoense concentra titulares no Brasileirão. O objetivo é seguir acumulando experiência competitiva e, gradualmente, abrir caminho para outras profissionais em um ambiente que começa a ser pressionado por organismos internacionais e pela própria qualificação feminina.
O feito na Arena Condá não garante vaga definitiva no banco principal, mas amplia o debate dentro do clube e no campeonato. Para a Série A, onde cada ponto costuma custar cargo de treinador, a presença de Nívia lembra que competência também se mede fora dos padrões historicamente impostos pelo futebol brasileiro.









































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